E as avós. - Quando a mãe fala

E as avós.

E as avós. Desde que me lembro, que me recordo da minha avó. Vivia connosco. Era pequenina e cheia de estaleca e tinha mil cuidados com os cabelos, usava aqueles caracóis pequeninos e eu achava-lhe graça. Recordo-me de brincarmos juntas, montarmos cabanas com mantas e dividirmos os espaços para que as bonecas tivessem a sua casa, uma casa gigante onde eu também pudesse lá estar. Recordo-me de me ensinar a fazer bolinhos com terra e a esmagar flores coloridas para dar chá às bonecas. Recordo-me também, de me ensinar a preparar o jantar, envolvendo-me com os legumes e com as cascas e me dizendo um a um, a que faziam bem. A minha avó chamava-se Elisa. Tinha um nome bonito e pequenino como ela.
A minha avó, levava-me a ir buscar o pão quentinho pela manhã ao padeiro que passava lá pela rua e deixava-me levar os gatos que eu adorava passear ao colo... a minha avó, brincava comigo à bola e mesmo sem conseguir acertar um chute, nunca dava parte fraca e quando a bola batia num sítio errado e fazia porcaria, a minha avó, acolhia-me e dizia-me que o importante era não me ter magoado.
A minha avó, cedo foi perdendo algumas das suas capacidades cognitivas, ficou com alzeimer mas nunca deixou de querer brincar comigo e de ter paciência para mim.
Com os anos, a minha avó, pintava o cabelo em casa e permitia que eu, com o sonho de ser cabeleireira, lhe ajeitasse as pontas espigadas. No fim, mesmo ao espelho, dizia-me sempre que tinha jeito para isto.
Eu já crescida, tomei conta da sua higiene. Dava-lhe banho, muitas vezes contra a sua vontade porque embirrava que não queria. Depois, com alguns mimos, cedia. A minha avó, adorava os animais e dar os seus passeios e tomar chá. Fazia-os com as ervas que encontrasse e sabiam sempre bem...
Já velhinha, a minha avó, já não se lembrava de mim. Nem do meu nome. Mas eu sabia quem tinha sido ao longo de toda a vida e quando a sua hora chegou, fiz como ela sempre me ensinou: olhei o céu e vi que brilhava uma estrela e que lá de cima, olharia por mim.

A minha outra avó, ainda velhinha, está connosco. Sempre viveu mais longe de mim. Recordo-me de brincarmos com o seu cesto do bordado e acharmos mágico o que de lá saia. Tinha tudo o que podíamos imaginar, por vezes até pintainhos.
A minha avó Conceicao era bordadeira. Teve 14 filhos. É uma mulher muito forte e com uma coragem e determinação inigualável. Recordo-me de ter sempre frutas deliciosas e merendas que não tinham fim. Aos fins de semana, enchia-mos-lhe a casa com correrias e saltos e de tão habituada a isso, sempre acrescentava que correr só nos fazia bem. Foi com a avó Conceicao que aprendi a caçar borboletas e a observar o seu pousar.

Conforme fui crescendo, as minhas avós sonhavam com os bisnetos. A minha avó Elisa conhece a Be desde o céu.
A Be tem 3 avós, na terra. É uma sortuda. Todas lhe fazem as vontades. São carinhosas e são encantadas com o seu crescimento. A Be tem uma paixão interminável pela minha mãe. Fica encantada e aos saltos só de saber que vamos lá passar em casa e as vezes, no silêncio das suas brincadeiras livres, lembra-se dela e chama “vó”.  São umas cúmplices das asneiras e por vezes, tenho que ser eu a meter ordem nas duas... mas são tão felizes juntas.




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