Ai ... não furas as orelhas à menina? - Quando a mãe fala

Ai ... não furas as orelhas à menina?

Que tragédia!
O drama e o horror invadem as casas dos pais de meninas que optam, tal como eu, por deixá-la decidir, se quer ou não, no seu corpo, um furo em cada orelha. Já pensaram se ela preferia dois numa apenas? Ou apenas um mas na parte superior? Ou, no melhor dos casos, nenhum? Ah pois...não!
Mas depois aparecem os vizinhos, e todos os “infos” que lá dizem “ahh... parece um menino, ainda não lhe furaste as orelhas?”; “olha que coitadinha vai sofrer mais agora que é maior e já sabe?”. Querem ver que um recém-nascido não sente dor? É que estes especialistas “info fura as orelhas à miúda já”, sabem de tudo!!
Confesso que nós nunca demos muito importância a isso! Irrraaaa... mas que mexia com o nervo miudinho do dedo mindinho do pé esquerdo da quarta pata do cavalo, lá isso mexia!
Mas calma... nós percebemos a herança cultural do furar as orelhas. Mas, nos dias que correm, os bebés, e atenção, meninos e meninas, mais cedo do que pensamos, irão querer comandar as suas decisões corporais... e não faz sentido que a moça decida, com consciência e maturidade, se quer ou não usar brincos?
Sabem qual foi a pior que ouvi? “Ahhh... isso para os padrinhos do batismo será uma dor de cabeça, não lhe podem oferecer os brincos!”. Ohhh pahhh... e nós ralados!
Ouçam, não há tragédia em nada disto! Venho a informar que as casas de brincos continuarão abertas e serão recomendadas pelas maquinetas extraordinárias de “furar as orelhas” mesmo que as mães e pais optem por deixar para mais tarde.
Agora claro surge a dúvida dos meus “infos mais queridos fura as orelhas à míuda já”: então é só aos 18 anos? Não. Não é aos 18 anos, caríssimos.
Será quando, eventualmente, a Be entender e tiver maturidade, dentro da nossa (e da sua) consciência, decidir se vamos (juntos, sim)  dar esse passo. Chama-se colocá-la a decidir algo sobre si mesma. E acreditem, há assuntos tão mais complicados, que nós adultos, colocamos os nossos filhos a decidir!
Vejam lá bem, que a nossa legislação prevê, no âmbito da proteção de crianças e jovens, a audição da criança aos 12 anos, ou em idade inferior (se assim for justificável e autorizado) em decisões fortemente importantes sobre o seu futuro e projeto de vida. Por outro lado, em situações de divórcio dos pais, temos crianças a decidir, no meio de um conflito de adultos, se fica com a mãe à 6ªfeira ou se sábado sai com o pai...colocamos ainda os nossos filhos a decidir se mentem ou não aos avós, quando somos adultos capazes de dizer “se a avó ligar diz que estás com muitos trabalhos de casa e vamos lá outro dia” e ao mesmo tempo (ainda no próprio dia) lhes pedimos que não mintam aos amigos pois assim não se conservam amizades.
Somos ainda bem capazes de pedir aos nossos filhos que não contem ao pai que lhes permitimos comer um gelado antes do jantar... ora bem...! Parece que afinal, afinal... os putos ainda decidem “bué cenas sozinhos”.  
Por isso, sejamos conscientes nós, que furar ou não as orelhas a uma menina, acabada de nascer, com 30 dias apenas, é somente um ato que compete aos pais decidir e deliberar. Os pais são os educadores, aqueles sérios chatos, que lhes colocarão várias vezes hipóteses de escolha (mesmo tentando dissuadir com alguma manipulação o resultado) ao longo das suas vidas.
Serão os pais, que amigavelmente, deverão conversar com os filhos quando estes querem tomar decisões que indiquem já estarem preparados para subir um novo degrau.
E creiam, furar as orelhas, os pequenos segundos daqueles estalinhos da bendita máquina, dói aos 30 dias igual que aos 30 anos!


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