ciclo da vida
Os pais
Os pais são chatos!?
Não posso dizer que não pensei várias vezes que o eram mesmo!
Tive a sorte (que agora vejo) de ter aquela mãe que ligava três ou quatro vezes ao dia para saber se tinha comido, o que tinha comido ou melhor, se tinha comido tudo! Ai... Era tão chata!
Ora ligava pela comida, ora ligava para se certificar que o sítio onde eu estava, não estava (eventualmente) frio e não fosse eu, meio palmo de gente, apanhar “uma corrente de ar” e vir a ter dores de garganta. E claro, logo após esse inquérito “by PJ perfil de mãe galinha”, vinha a derradeira questão: “levaste o casaco?” E após, os meus escassos minutos de silêncio, vinha de imediato “porquê que tu não ouves a mãe falar?”
Pois é.
Sabem, eu até ouvia. E ouvia bem (a minha mãe repetia 30 mil vezes o mesmo!) Era impossível o surdo mais moco de todos não ouvir!
Depois, lembro-me da hora do jantar. Ena pá, “come a cenoura”, “não queres mais arroz?”, “a cenoura faz bem”, “tem mais arroz na panela”, “vais comer isso tudo, não vais?”, “já bebeste água hoje?”, “queres mais cenoura?”.
Houve vezes que tinha mesmo que pedir “paciência às alminhas do céu”.
Xiça, os pais ( e então, as mães) são chatos!
E depois quando foi para sair e ir ao cinema ou à discoteca?
Foi o descalabro.
Recordo-me, perfeitamente, (também não tem assim tantos anos que sai da casa dos meus pais), que na véspera do dia da saída, era infernal “já sabes onde vão?”, “sabes que tens hora para chegar a casa, não sabes?”, “eu vou te buscar seja a que horas for, se quiseres vir mais cedo”, “não tens que vir à hora que te colocamos, podes vir mais cedo, ouviste?”, “mais do que aquela hora, nem mais um segundo”, “não tens que ficar só porque os outros ficam”.
Confesso, que, houve dias em que achei, que a minha mãe tinha um grave problema auditivo quando o meu “tá bem”, “sim, já ouvi”, parecia fazer eco no túnel mais longe da Arábia Saudita. Mas, rapidamente, percebia que ouvia, estupidamente bem, qual marciano infiltrado da NASA, que conseguia ouvir os meus passos a chegar a casa, pé ante pé.
Mas sabem, já nessa altura, a minha “galinha mais que favorita sem penas” me dizia de “papo cheio” - “quando tu fores mãe, é que vais dar o valor”, “tu um dia vás perceber o que é ser mãe”. E sabem, aos pouquinhos, vou engolindo em seco, com a ajuda do arroz e da cenoura, que me lembro vivamente, daqueles dias, quando olho a minha Be.
Por isso, e porque a minha experiência de filha não é única, vejam lá que falei com as teenagers mais fixes que eu conheço, a JS e JN (que só por acaso, são minhas primas) e ( ouçam lá míudos, ATENÇÃO, são giras que se fartam) e pedi-lhes que dissessem tal e qual de sua justiça, se os pais são chatos ou não.
Foi um fartote.
Mal lhes lancei o desafio, aquilo foi logo “esse tema é fácil”.
E vejam lá que não se sairam nada mal.
Todo o filho tem que aturar várias facetas dos seus pais, falando por experiência própria.
Tudo começa quando somos pequenos e descobrimos pela primeira vez o quão chato pode ser a faceta do pai apaixonado, o típico pai babado, que ora são cócegas, ora são abraços apertados ou até mesmo beijos molhados. Outra faceta que descobrimos enquanto crianças é a tentativa desesperada dos pais em tentar manter a calma entre os filhos o que muitas vezes só piora a situação. Isto porque, todos nós sabemos que quando estamos irritados se alguém nos manda acalmar só nos deixa pior.
À medida que vamos crescendo, vamos descobrindo novas facetas, surgindo aquelas que se descobre na adolescência. Aparece, portanto, o pai curioso e protetor (até demais). O pai curioso é aquele que está constantemente a fazer perguntas querendo saber os pormenores que se passa na vida do filho tais como: “A que horas sais?”, “O que vais almoçar?”, “Levas lanche?”, “O que vais fazer?”, “Tens dinheiro?”, “A que horas chegas?”, “Levas casaco?” entre muitas outras que levariam páginas e páginas para escrevê-las. Chatos são também aqueles pais que andam «á paisana», que procuram de forma minuciosa saber dos
segredos dos filhos.
Finalmente, chegou a altura do adolescente se tornar adulto e descobrir o pai receoso, aquele que está constantemente com medo de deixar o filho traçar o seu próprio caminho. E após esta fase, infelizmente, não existe uma próxima e é aqui que chegamos à conclusão que todas estas facetas farão um dia parte de nós enquanto pais, quem sabe?!
E não é que as “giraças” disseram tudo?!
É mesmo isto. A vida é um ciclo.

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